Quarta-feira, 28 de Março de 2007
Momento de Poesia
A Vilarinho da Furna e ao seu Povo
 
Vilarinho da Saudade
Que o nosso coração sente,
Tu és a nossa paixão,
Tu vives eternamente.
 
Tuas serras majestosas!
Do granito têm a cor.
Urze, carqueja, giesta...
Os vestidos que vais pôr.
 
O Rio Homem passava
E suave te abraçava...
Lá ia por entre penedos!
Passava sempre contente,
No meio da sua gente.
 
No Verão, as moças iam
Banhar-se nas tuas águas.
Os moços logo o sabiam...
E nos arbustos se escondiam...
 
Aldeia comunitária!
Com suas veigas tão verdes,
As cabritas montanhesas
Lá iam em cada dia,
Pastar para a serrania.
 
Recordações nós guardamos,
Porque vivemos contigo,
Dentro de ti com o teu povo,
Por quem fomos tão amados!
 
Nós juntamos nossas lágrimas
Ao caudal das tuas águas
Que te cobriram um dia...
 
O teu povo foi disperso,
A saudade é um universo!
Que vive em nós dia-a-dia.
 
Cindinha de Aguiar (Família do 1.º Cabo Aguiar,
que viveu em Vilarinho da Fuma de 1951 a 1953)
 


publicado por MA às 22:12
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Quarta-feira, 14 de Março de 2007
Benefícios nas Áreas Protegidas?
Caro(a)s amigo(a)s,
No princípio do mês, perguntei, na AMBIO, se alguém conhecia "um único
benefício (...) que o estatuto de "áreas protegidas" tenha trazido às zonas
onde estão implantadas".
Até ao momento, só obtive resposta de dois participantes neste "forum": de
Inês Cabral, que refere o aproveitamento turístico por alguns habitantes do
PNPG e o custo dos terrenos nessa zona; e de Henrique Pereira dos Santos,
que aponta os mesmos benefícios, acrescidos da visibilidade de estar nessas
áreas.
Quanto ao turismo e custo dos terrenos, sempre existiram e variaram, antes,
durante e (hão-de existir/variar) depois das "áreas protegidas". Os turistas
afluem lá, não por terem o rótulo de "áreas protegidas",  mas pelas
características das zonas em que estão, que os seus naturais/residentes,
geralmente, conservaram/valorizaram, durante milénios. Que eu saiba, não há
nenhuma "área protegida" em Lisboa-Costa do Sol e, segundo notícias que, no Sábado
passado, ouvi na Rádio, é a zona de Portugal Continental com mais turistas, por ano. A
seguir, vem o Algarve (até bem recentemente estava em primeiro lugar) e não
me consta que as pessoas vão lá por causa da "área protegida" da Ria
Formosa. Depois, aparece Fátima e não creio (é mesmo uma questão de fé) que
os turistas  vão lá  por causa da "área protegida" da Serra d'Aire e
Candeeiros, com as suas pedreiras a céu aberto. E chegamos, finalmente, ao
Gerês, quarto destino turístico, ao que consta, no continente português, que, só por
desinformação se poderá dizer que é devido à sigla PNPG.
De facto, o PNPG ainda é uma criança. Acompanhei-o nos trabalhos de parto e
ajudei ao seu nascimento (oficialmente a 8 de Maio de 1971). Pelo que os
seus quase 36 anos são uma insignificância comparados com o aparecimento das
serras da Peneda-Soajo-Amarela-Gerês (onde o PNPG está implantado), no
período Devónico, há uns 380 milhões de anos, passando pelo Pérmico, há 280
milhões de anos, pela Orogenia Hercínica/Varisca, pelas glaciações do
Quaternário, há cerca de 1,8 milhões de anos, até aos nossos dias (cf.
Geneviève Coudé-Gaussen, Les Serras da Peneda et do Gerês - Étude
Géomorphologique, Memórias do Centro de Estudos Geográficos, Instituto
Nacional de Investigação Científica, Universidade de Lisboa, 1981; Carlos
Alberto Medeiros et al., Geografia de Portugal - O Ambiente Físico, Círculo
de Leitores, Rio de Mouro, 2005; etc.; para uma consulta mais rápida, há,
por aí, vários "sites" onde se fala do assunto).
Pelo que, quanto a visibilidade, o PNPG que vá crescendo e aparecendo.
Mesmo que não traga benefícios para os seus naturais/residentes, se não
trouxer mais prejuízos do que tem trazido, já nos damos por satisfeitos.
Mas também não lhe atribuam culpas que não tem. Como esta do Henrique dizer (certamente por distracção),
a propósito da visibilidade, que "Não por acaso a água do Fastio, que é
captada na serra Amarela, se identifica com a serra do Gerês".
Aqui não havia necessidade de qualquer investigação para ser objectivo.
Bastava olhar para o rótulo de uma garrafa de água do Fastio (no garrafão
vê-se ainda melhor) para ficar informado que essa água, "Nasce na Gruta de
Nossa Senhora do Fastio, Terras de Bouro, na Serra do Gerês, já célebre
desde 1918", no lugar de Gradouro, freguesia de Chamoim. E não aparece lá
qualquer sigla do PNPG. Os seus accionistas até estão muito felizes e
contentes (já me ri com um deles, por acaso, natural Vilarinho da Furna, por
este lapso do Henrique) pela nascente ficar fora do Parque, mas no Gerês.
Por isso, é com toda a legitimidade que usam, na embalagem, a foto, com os morros da 
Calcedónia, da serra do Gerês, como fundo.
Se ainda dúvidas houver e escassear o tempo para as obras de referência
científica, é só consultar um mapa das estradas, por exemplo o do Automóvel
Club de Portugal.
Passe a publicidade.
Cumprimentos.


publicado por MA às 17:10
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Terça-feira, 13 de Março de 2007
Encostas de Vilarinho... O Consenso
Caro Henrique,
Como vê, com a gente de Vilarinho também é possível chegar a consensos.
E, como, brevemente, me vou encontrar com o Sr. Director do PNPG, seguirei o
seu conselho.
Um abraço.
Manuel Antunes
P.S.- Bem gostaria que todas as questões surgidas na calor deste bate-papo,
nomeadamente sobre Vilarinho e as "áreas protegidas", já estivessem
esclarecidas. Como ainda há alguns assuntos pendentes, que, talvez, tenham
algum interesse para a AMBIO, mesmo que nem sempre se chegue a acordo,  vou
procurar trazê-los aqui, à antena, em próximas mensagens.
MA

----- Original Message -----
From: "henrique pereira dos santos" <as1075017@sapo.pt>
To: "'Manuel Antunes'" <mantunes@mail.telepac.pt>; "'AMBIO'"
<ambio@uevora.pt>
Sent: Sunday, March 11, 2007 8:11 PM
Subject: RE: Encostas de Vilarinho da Furna

Ora ainda bem que aqui temos um claro consenso.
Não sei como será a melhor maneira de o fazer, mas o PNPG tem um acervo de
fotografias aéreas de várias datas, pelo que talvez falando com o Sr.
Director se encontre maneira de contribuir para esse espólio.
O problema da cedência é que esta informação tem direitos e muitas vezes o
ICN possui o direito de usar as fotografias (e ortofotomapas) para fins
determinados mas não para os ceder a terceiros.
É conversar, ver em concreto o que há e quem detém os direitos e de que
forma se poderia articular com o museu de Vilarinho sem custos excessivos.
henrique pereira dos santos
----- Original Message -----
From: "Manuel Antunes" <mantunes@mail.telepac.pt>
To: "henrique pereira dos santos" <as1075017@sapo.pt>; "'AMBIO'" <ambio@uevora.pt>
Sent: Sunday, March 11, 2007 7:04 PM
Subject: Re: [ambio] Encostas de Vilarinho da Furna

Caro Henrique,
Eu cá não duvido nada das suas referidas fotos.
Confesso, sinceramente, que gostava mesmo de as ver e, se possível, obter
uma cópia para o Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, como ando, há
muito, a tentar recolher o que me vai aparecendo sobre a minha terra. Aliás,
ainda em 1971/72, eu próprio tentei convencer os então Presidente da Câmara
Municipal de Terras de Bouro e Director do PNPG a fazerem fotografias aéreas
de Vilarinho. Penso que algumas chegaram a ser feitas, embora não conheça os
resultados, pois conservo o testemunho, do Eng. Lagrifa Mendes, em carta de
22/04/1972, publicada no meu livro Vilarinho da Furna - Um Aldeia Afundada,
A Regra do Jogo, Lisboa, 1985, p. 93, onde, entre outras coisas, diz: "Amigo
Azevedo Antunes, Ainda ontem viajei casualmente ao lado do Sr. Presidente da
Câmara e, embora a curta viagem de avião não desse para muito, lá abordei  a
questão do Museu". E retenho uma lembrança (ou estarei equivocado?) de o
Presidente da Câmara de Terras de Bouro me ter dito que havia pedido para
fazer uma fotos aéreas, na zona de Vilarinho.
Por isso, qualquer documentação que alguém possa encontrar sobre Vilarinho
da Furna é sempre bem-vinda.
Cumprimentos,
Manuel Antunes


publicado por MA às 02:12
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Domingo, 11 de Março de 2007
Encostas de Vilarinho... à guisa de conclusão
Olá Henrique,
Penso que já toda a gente entendeu que não fui eu que falei dessas fotos da
RAF e da força aérea americana. Quem falou delas que as
apresente. E olhe que até teria muito interesse nelas, além do mais, para as
colocar no Museu de Vilarinho, ao lado das minhas. Mas também já todos
entenderam que o Henrique, segundo diz, tem fraca memória e não está para
investigar nem este nem outros assuntos por si aqui trazidos à baila. Então,
estamos conversados sobre esta matéria, porque ainda há outras questões
pendentes. Mas olhe que a foto do Google não está assim tão má como isso
(mesmo para míopes) e as fotos da minha autoria estão com óptima
definição... Tanto as dos finais dos anos sessenta, de meados de setenta,
como as dos incêndios deste início de século, incluindo o do ano passado.
Reconheça, lá, que é verdade!
E, já agora, a propósito dos bichos de que fala, na zona de Vilarinho, como
na ECO'92, no Rio de Janeiro,  ouvi dizer a vário índios brasileiros,
expulsos das suas terras, nomeadamente para criar áreas protegidas, olhe que "homem também é bicho"!

----- Original Message -----
From: "henrique pereira dos santos" <as1075017@sapo.pt>
To: "'Manuel Antunes'" <mantunes@mail.telepac.pt>; "'AMBIO'"
<ambio@uevora.pt>
Sent: Sunday, March 11, 2007 9:09 AM
Subject: RE: Encostas de Vilarinho da Furna

Caro Manuel Antunes,
O que sugeri é que o Manuel Antunes, que pretende negar o que toda a gente
que estuda a área conclui, é que o Manuel Antunes comparasse fotografias
aéreas antigas (referi as dos anos 40, do fim da guerra, feitas pela RAF e
as de 1958, feitas pela força aérea americana) com fotografias aéreas
actuais (o que é diferente das fotografias de satélite do google, que nesta
área têm muito pouca definição).
Não anunciei nada.
Se o Manuel Antunes para seu proveito, deleite e instrução não quer fazer
este exercício, está no seu inteiro direito.
Eu não anunciei aqui nenhumas fotografias nem o vou fazer.
Mas isso não me tira nenhuma razão, e o Manuel Antunes, que conhece
profundamente a área, sabe perfeitamente que hoje há incomensuravelmente
mais carvalhal na encosta de Vilarinho que havia no fim dos anos sessenta e
que os matos estão muito mais desenvolvidos, sendo aliás por isso que os
incêndios são mais violentos, mas bastantes mais separados no tempo que as
queimadas constantes dos pastores de Vilarinho, sendo também por isso que o
corço e esquilo voltaram a esta área.
Ficções? Obsessões? Quem as não tem?
henrique pereira dos santos


publicado por MA às 14:36
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As Encostas de Vilarinho
Enquanto esperamos pelas fotografias da força aérea americana, que o
Henrique Pereira dos Santos anunciou, para  justificar que "a encosta
de Vilarinho é das melhores áreas de recuperação do Parque Nacional", aqui
ficam algumas fotos da minha autoria, sobre as Degeneradas Encostas de
Vilarinho da Furna, que o Henrique tanto aprecia
http://afurna.no.sapo.pt/ENCOSTAS_VILARINHO.pdf
Um vista mais panorâmica pode ser obtida em
http://afurna.no.sapo.pt/VISTA_DO_CEU.pdf
(não nego que aqui haja uma mãozinha dos americanos...), onde se
notam perfeitamente, na margem direita da albufeira, os resultados dos
incêndios de 2000-2006, de que já falei, pelos quais o
Henrique parece ter um carinho muito especial.
Se o Henrique quiser continuar esta conversa, esteja à vontade, mas faça
favor de trazer dados objectivos e não apenas as suas ficções e obsessões.


publicado por MA às 01:16
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Segunda-feira, 5 de Março de 2007
Portagens... até quando?

Estimado Miguel,
Acabei de rever as imagens (em arquivo pessoal) que, em vésperas de Verão de
1992, a RTP transmitiu, em dois noticiários, sobre as portagens na Mata da
Albergaria. Nessa altura, de 1990 até então, cada carro que entrasse na Mata
pagava mil escudos, equivalente a cinco euros de hoje, excepto os dos
naturais/residentes do/no concelho e dos que atravessassem a fronteira, com
um tempo limitado para percorrer a Albergaria.  E o PNPG deveria prestar
contas à Câmara Municipal de Terras de Bouro, a quatro Juntas de Freguesia
da zona e à AFURNA. A esta foi garantido, nomeadamente pelo então Presidente
do SNPRCN/ICN, por  várias vezes, que tal seria feito, o que nunca
aconteceu. Ninguém pedia sequer qualquer distribuição dos lucros das
portagens: apenas se exigia que houvesse uma efectiva limitação das viaturas
na Mata e a prestação de contas. Pois, nada disso foi feito, o que levou à
revolta das entidades locais. A solução, depois de duas reuniões acaloradas,
no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna
(http://afurna.no.sapo.pt/museu.html), a que também assisti, foi a que
passou a vigorar até hoje: aos feriados e fins-de-semana, durante os meses
de Verão, as viaturas motorizadas dos não naturais/residentes só estão
autorizadas a atravessar a Mata da Albergaria, a caminho da Galiza, pela
Portela do Homem, ou em sentido inverso, com um tempo limitado para fazer o
respectivo percurso, sem qualquer pagamento. É simples, bom e barato. Embora compreenda que o ICN/PNPG veja ali uma
fonte de receita apetecível, de que, nos termos da portaria n.º 31/2007, de
8 de Janeiro (http://dre.pt/pdf1sdip/2007/01/00500/01140114.PDF), não terá
que dar contas a ninguém. O que ainda vai tornar o ambiente da Albergaria
muito mais degradado. Se é que essa Portaria entrará mesmo em vigor...
Cumprimentos.
Manuel Antunes

P.S. - É reconfortante saber que, nestas andanças, já não estou só. O Pedro
Lérias, embora com algumas razões diferentes, acaba de dar uma ajuda.


----- Original Message -----
From: <mba@uevora.pt>
To: <ambio@uevora.pt>
Sent: Saturday, March 03, 2007 8:21 PM
Subject: Re: [ambio] Portagens Mata de Albergaria

Caro Manuel Antunes,
(...) Continuo sem perceber qual a razao de fundo para ser contra as portagens
pagas. Entradas pagas existem numa grande parte dos parque nacionais do
mundo. Neste caso nao seria facil cobrar a entrada (mas nao impossivel)
porque o Estado nao detem grande parte da propriedade dos terrenos
inseridos no parque. Mas a implementacao de portagens pagas numa estrada
nao oferece qualquer problema legal, ao contrario do que desejaria o
Manuel. E na realidade e' uma forma interessante de contornar o problema
de nao se poder cobrar entrada. Como referi na mensagem anterior, sem que
o Manuel apresentasse qualquer argumento contrario, a existencia de
portagens e' importante porque estimula o sentido de cidadania dos
visitantes. Alem do mais permite arrecadar uma receita adicional, paga
pelos visitantes (nao os residentes ou naturais da regiao), para a gestao
da mata.
Confesso que me escapa por completo a logica de contestacao desta medida.
A ironia e' que eu teria de pagar portagem a' entrada da mata e nao me
importo de o fazer. O Manuel e o povo que diz representar estara' isento
de pagamento e gasta o seu tempo a lutar para que eu nao pague a dita
portagem. Nao havera' causa mais util com a qual gastar o tempo escasso da
vida de uma pessoa?

"Apenas consigo ver, nessas portagens, a tal "máquina registadora" dos
cofres do ICN/PNPG, que só contribuirá para a degradação do ambiente, na
minha terra."

Esta frase diz muito, provavelmente tudo. Primeiro da' a entender que e'
mau o ICN ter receitas proprias com base na cobranca de servicos aos
visitantes dos parques. Uma ideia sem qualquer sentido. Segundo que o ICN
degradara' o ambiente ao ter um pequeno aumento de receita directa que, de
acordo com a portaria, tera' de ser gasta em actividades de conservacao na
regiao. Um sem sentido ainda maior. Imagino que o Manuel Antunes ficasse
contente se a verba fosse entregue aos residentes e naturais da regiao a
troco de nada. Eu sugiro ao Manuel e aos residentes que, como fazem
pessoas noutros Paises da Europa, onde o empreendorismo esta' mais na
ordem do dia, que pensem em actividades economicas, amigas do ambiente,
que pudessem desenvolver para beneficiar directamente do fluxo de
visitantes que vai ao Geres e que nao iria se esta area nao fosse
classificada como parque nacional.

"E, se é certo que, como o Miguel refere, há portagens em estradas que
atravessam propriedades privadas, primeiro, o Estado (ou Autarquias)
compra, paga, indemniza, compensa os respectivos proprietários e só depois
é que passa. Porque é que, no Gerês, há-de ser diferente?"

Concerteza que nao e' diferente no Geres. Por isso as gentes locais nao
sao nem devem ser indeminizados por existir uma portagem da qual estao
isentos de pagamento e da qual nao sao objectivamente prejudicados. Lembro
que o principal argumento ambiental do Manuel Antunes era que as portagens
nao iriam reduzir o trafego. Ora se nao reduzem o trafego que impacto
terao sobre os residentes da regiao? Alem do mais, onde se viu os
proprietarios de terras atravessadas por autoestradas beneficiarem de
compensacoes pela existencia de portagens? Lamento, Manuel, nenhum destes
argumentos faz qualquer sentido. O que parece estar em causa sao guerras
viscerais com o ICN. Mas isto nada tem a ver com a conservacao da natureza
que e' o que nos deveria interessar neste debate. (...)
Cumprimentos,
Miguel Araujo



publicado por MA às 00:42
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Quinta-feira, 1 de Março de 2007
O Gerês já sem Costa

Onde o Henrique Pereira dos Santos, no seu "post" fala de "demagogia",
suponho que queria dizer "demografia",  uma das minhas competências
profissionais, ou, talvez, "democracia", que aprendi desde o berço, em
Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Comunitária, título da primeira tese de
Doutoramento de Jorge Dias, em 1944, em Munique.
"Demagogia?... Demagogia?... O que é isso?"...,  não, não conheço... Deve ser coisa de político.
Por outro lado, se não faço parte  da população residente da Peneda-Gerês é
porque me afundaram a terra, como é sabido. Mas nem por isso deixo de ser de
lá natural. Por favor, não me obriguem, por agora, a recordar novamente
coisas tristes...
E, se, como diz, o que "as áreas protegidas pretendem proteger são valores
nacionais", então que a nação contribua para esses valores locais, coisa
que não tem acontecido. Se exceptuarmos um ou outro caso de "ganha pão" para
(poucos) funcionários, naturais dessas áreas, não conheço um único benefício
(alguém conhece?) que o estatuto de "áreas protegidas" tenha trazido às
zonas onde estão implantadas. Com mágoa o digo, porque, modéstia à parte,
fui um dos dinamizadores do PNPG, sem nunca daí receber um cêntimo, com o
Eng. Lagrifa Mendes,  de saudosa memória, mesmo ainda antes da oficialização
desse Parque. Até ofereci ao PNPG um Museu e uma ponte medieval, em pedra
granítica, sem contar com a disponibilização das serras, de Vilarinho da
Furna, e não só, sem qualquer benefício e um ror de problemas. Talvez por
isso, temos as piores áreas protegidas da Europa, para não dizer do planeta.
Sobre essa matéria, permito-me transcrever o mais que insuspeito Prof. José
de Almeida Fernandes: "Que reacção se espera do cidadão a quem um estranho,
representante da autoridade, venha obrigar a utilizar o que é seu segundo
critérios que lhe são alheios e que não entende? Que colaboração se pode
pedir a este cidadão para a correcta gestão da utilização da sua propriedade
privada? Onde pára o preceito constitucional do direito de propriedade?
(...) Desçamos à realidade concreta. Há que pagar, indemnizar, todos aqueles
que tiveram o "azar" de se verem incluídos nos perímetros das áreas
classificadas, e se perguntam porque lhes coarctaram os direitos e lhes
mantêm os deveres, ou até os aumentaram, em relação aos que tiveram a
"sorte" de ficar fora desses perímetros. Supomos que não há um mínimo de
justiça equitativa neste caso, mas é isto que tem acontecido no nosso país"
(in Do Ambiente Propriamente Dito, IPAMB, Lisboa, 2001, p. 145).
É natural que o Henrique tenha uma ideia do processo judicial de que falei,
pois enviei cópia da referida sentença e de uma outra em que o Director do
PNPG de então também fora condenado, por me andar a difamar, por carta
d'AFURNA, de 12/04/96, Ref  ICN196, e recebi  resposta, assinada por
Henrique Pereira das Santos, na qualidade de Vice-Presidente do ICN, com a
data de 5/06/96, Ref 03967. Curiosamente, dois dias depois de eu ter
felicitado, por fax, a Direcção do ICN pela demissão do referido Director,
de triste memória. Penso que será fácil ao Henrique ter acesso a essa
correspondência, para tirar todas as dúvidas.
Quanto a essa sentença, apenas uma ligeira rectificação: na citação por mim
feita no "post" anterior, utilizei a cópia da Acta do processo, quando, na
versão final, ficou escrito que  "O Parque Nacional da Peneda-Gerês entregou
neste momento a soma de seiscentos mil escudos, que o réu Manuel Antunes, na
qualidade de presidente da Direcção da mesma Afurna, declara ter recebido".
Nestas condições, não me importava de ser réu todos os dias...
E, na referida sentença ficaram bem claras e reafirmadas, mais uma vez, as
confrontações da propriedade particular do Monte de Vilarinho da Furna, que,
no âmbito do mesmo processo, foram objecto de uma verificação no terreno,
pelas delegações da AFURNA e do PNPG, às ordens do Tribunal. Como
reafirmados foram também os privilégios do mesmo povo de Vilarinho na Mata da
Albergaria.
Querem mais sentenças sobre a propriedade privada do Monte de Vilarinho da
Furna? Pois aí vão elas: sentença de 15 de Outubro de 1962, no Tribunal de
Vila Verde, Acção Sumária nº 4226, 2ª Secção, em que o estado salazarista é
condenado, depois de 16 anos de processo (está publicada no meu livro
Vilarinho da Furna - Memórias do passado e do futuro, com muita outra
documentação, inclusive fac-simile do registo predial da propriedade);
sentença de 31 de Julho de 1969, no Tribunal de Vila Verde, Acção Ordinária
nº 5454, 2ª Secção, em que o estado marcelista é condenado e impedido de
fazer um estradão, do Lindoso para a Portela do Homem; 30 sentenças, no
Tribunal de Vila Verde, em processos de inventário para habilitação de
herdeiros do Monte de Vilarinho da Furna; sentença no Tribunal de Vila
Verde, em que uma cidadã é condenada a reconhecer que a AFURNA tem
legitimidade para cobrar portagens na barragem de Vilarinho, e posterior
sentença condenatória por crime de difamação.
Como vê, Henrique, se há coisas que não faltam são sentenças definitivas
sobre a propriedade da terra, em Vilarinho da Furna. Por isso, mesmo que o
meu povo de lá tenha partido, ao contrário do que o Henrique pensa, continua
com os seus direitos de propriedade sobre os montes particulares, usados de
forma comunitária, o que é bem diferente de "montes comuns". Leiam Link,
Tude de Sousa, Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Benjamim Pereira, Miguel Torga, Jaime Cortesão, Hugo Rocha, Rosado e Delmira
Correia, Aquilino Ribeiro, Francisco Duarte Mangas, Gladys Novaes, A. Lopes de Oliveira, Armando de Castro, Alfredo Mendes, José Riço Direitinho, João Pedro Reino, Lucinda Duarte, Manuel Antunes e tantos outros, e aprenderão a diferença.
É por estas e  por outras que a terra de Vilarinho nunca foi tomada pelo
Estado. Mas talvez isso tenha sido mais uma razão para nos terem tentado
fazer desaparecer com uma barragem. Registamos a declaração do Henrique "que
provavelmente teria sido contra" a barragem, embora não tenha a certeza,
pois, pelos vistos, o matagal recuperado nas encostas de Vilarinho e que, de
dois em dois anos, apenas serve para combustível para o espectáculo nacional
dos incêndios (cf. os incêndios de 2000, de 2002, de 2004, de 2006, onde não
arderam apenas 300 hectares, mas, seguramente, mais de mil), basicamente por
falta de acessibilidades, como foi reconhecido pelas entidades competentes
na matéria. Preferir esse matagais à vivência de toda uma comunidade de 250
pessoas, com milhares de animais caprinos, ovinos, bovinos, cavalares, que
se alimentavam na serra, onde os matos eram roçados e os fogos controlados
em tempo oportuno, é, no mínimo, algo de mau gosto.
E, quanto às fotografias de que fala, espero que o Henrique me dê, no
mínimo,  o benefício da dúvida, de não pretender que, pelo menos no que me diz
respeito, os americanos venham ensinar o "padre nosso ao vigário".
Desafio qualquer um, americanos inclusive, com toda a sua força aérea, a apresentar qualquer
levantamento fotográfico e não só, de Vilarinho da Furna, tão exaustivo como
eu o fiz. Parte desse levantamento anda por aí publicado e está em exposição
no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna. É só ir lá ver.
Mas, já que o Henrique confia tanto nas fotos do americanos, faça favor de
reparar que os caminhos que AFURNA previa no projecto de 1989 eram,
genericamente, os que já estavam e estão implantados no terreno, desde
tempos imemoriais, quer como caminhos de carro de bois, quer como carreiros
de pé posto. E que vêm perfeitamente assinalados na Carta Militar de
Portugal nº 30, dos anos de 1940 a esta parte, nos ortofotomapas do
Instituto Geográfico e Cadastral de várias versões, em planimetria e
altimetria, e que, na quase totalidade, já foram objecto de um levantamento
por GPS, pelas equipas d'AFURNA. Portanto, caro Henrique, esteja à vontade, podemos
conversar sobre isso quando quiser.
Com a maior consideração,
Manuel Antunes



publicado por MA às 01:43
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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007
Novamente da Caparica para o Gerês
Caro Henrique e demais AMBIOnautas,
O autor dos "baixos" do EXPRESSO vem perfeitamente identificado no jornal.
Eu não fui, de certeza. Mas não me importava nada de ter feito esse belíssimo "flash", como é notório. Sem pretender que o Ministro do Ambiente se transforme num feiticeiro que "prenda o mar", como "outros prendem a chuva"... Talvez reminiscências das minhas memórias de África!
Trata-se de João Garcia, jornalista que assina a coluna do "Altos ... e baixos" (jgarcia@expresso.pt). Tudo às claras. Pelos vistos, também há "altos", embora, na semana passada, só tenha aparecido um.
Quanto à plantação de árvores no Gerês, que tanto parece incomodar o Henrique (pessoa que eu muito prezo, embora nos tenhamos cruzado pessoalmente, talvez, apenas uma vez, e cujas opiniões, aqui, na AMBIO, nunca me levantaram qualquer objecção), não fui eu que andei a prometê-la.
Basta lembrarmo-nos da comunicação social das épocas dos incêndios para (re)ver o rodopio de quanto é Ministro, de quanto é Governo, de quanto é Autarca, de quanto é funcionário, do Ministério do Ambiente incluído, a prometer mais inquéritos, mais prevenção, mais mundos e fundos para a
reflorestação. É tudo um "é já a seguir"... E, depois, quando, como aqui já alguém disse, "os incêndios dormem" as promessas também adormecem.
Inclusive as promessas de reflorestação feitas pelo Ministério do Ambiente e/ou da Agricultura.
Mas vamos ao que mais (me) interessa e que me toca directamente.
Diz o Henrique:
"Caro
Manuel Antunes, devo ter sido o primeiro técnico (juntamente com outros, se bem me lembro) a dar parecer sobre o projecto de florestação que é referido no comunicado, lá pelos idos de 1989 e se tenho consciência de ter feito muitas asneiras pela vida fora seguramente que o parecer negativo
que dei não foi uma delas. Se a encosta de Vilarinho é hoje uma das áreas com melhor recuperação do Parque Nacional é exactamente pela diminuição da pressão humana que se seguiu à construção da barragem (diga-se de passagem que provavelmente eu teria sido contra a construção dessa barragem, mas não é isso que discuto). E com o projecto de apropriação disfarçado de projecto de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que temos hoje, do ponto de vista da conservação".
Primeiro, fico satisfeito por saber que alguém do ICN leu o comunicado
d'AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf).
Pelo menos, o ICN já tinha acusado a sua recepção automática, mais rapidamente do que o gabinete do Ministro do Ambiente. Mas ainda não teve tempo para responder, o que a gente de Vilarinho da Furna até desculpa, porque já está habituada a isso: desde que não nos respondam mal, já ficamos satisfeitos. Apesar do pessoal do ICN e de muitos outros organismos públicos passarem a vida a justificar o seu "ganha pão" à custa de pareceres negativos para as Áreas Protegidas, Parque Nacional do Peneda-Gerês incluído. Pois essas Áreas Protegidas só existem porque as populações daí
naturais e/ou residentes criaram e mantêm as condições para que elas existam. "Não havia necessidade", pois, de os técnicos do ICN (e não só), como diz o nosso povo, "cuspir na mão de quem lhes dá o pão".
Depois, porque, por mais satisfeito que se sinta o Henrique Pereira dos Santos, com o seu "mais que iluminado parecer negativo" sobre o projecto d'AFURNA, felizmente que, como dizia o humilde moleiro prussiano, para o seu
todo poderoso  e prepotente Imperador, "ainda há tribunais em Berlim para julgar as arbitrariedades dos poderosos".
Neste caso, houve tribunal em Braga. E, para que conste, no Tribunal de Círculo de Braga, na Acção Ordinária n.º 89/94, 1.º Juízo, em 13 de Outubro de 1995, ficou deiberado: "O Parque Nacional da Peneda-Gerês elaborará, até Outubro de 1995 e por forma a que dê entrada no Instituto Florestal em tempo útil, o projecto, modelo P.D.F., relativo à florestação dos terrenos situados na encosta da margem direita da Albufeira de Vilarinho da Furna e na área do Parque, apoiando a sua aprovação através do respectivo parecer favorável, assim como acompanhará e fiscalizará a execução daquele mesmo projecto, aceitando como interlocutora a ré AFURNA". E, logo a seguir: "Para compensar a ré AFURNA dos trabalhos de corte e extracção das madeiras do Pinhal da Bouça da Mó, também discutido nesta acção, o Parque Nacional da Peneda-Gerês entregará a soma de seiscentos mil escudos, que o réu
Manuel Antunes na qualidade de presidente da Direcção da mesma Afurna vai receber".
Reconheça, lá, Henrique, que foi obra, esta de ter entrado no processo como réu e sair do Tribunal com a condenação do PNPG a ter que elaborar o projecto, mesmo contra o seu parecer, e a ter ainda direito a uma
indemnização pelos pinheiros que cortei, em representação d'AFURNA, na Bouça da Mó, na Mata da Albergaria!...
Depois de muitas vicissitudes por que passou, entretanto, o referido projecto de reflorestação, só parte dele foi ainda executado. O resto da história poderá ficar para um próximo "post".Mas confesso que não percebo essa do Henrique, quando diz que, "com o projecto de apropriação disfarçado de projecto
de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que temos hoje, do ponto de vista da conservação".
É que, fique muito claro, aqui não houve nem  há qualquer disfarce. E nunca seria pelo facto de os terrenos de Vilarinho serem florestados com apoio do Estado português e da UE (quando a nossa área de uns 2000 hectares até tem contribuído para trazer dinheiro de Bruxelas para Lisboa), que haveria qualquer apropriação. Essa apropriação, por parte da gente de Vilarinho, vem de tempos imemoriais e foi confirmada na "Guerra do Gerês" (talvez venha a  falar dela aqui), de 1890, e por várias sentenças de Tribunal, a última das quais a já referida sentença do Tribunal de Braga, de 1995. Se quiserem mais alguma sentença comprobatória, é só dizer, porque, por mim, podemos ir já hoje Tribunal, talvez a única instituição portuguesa com que me tenho dado muito bem, mesmo quando entro como réu. Graças, naturalmente, ao traquejo que me deu o facto de ter andado numa dezena de processos,
durante meia dúzia de anos, com um Director do PNPG, cujo nome me dispenso de referir, por já o ter "imortalizado", além do mais, num dos meus livros.
Aproveito a oportunidade para agradecer ao Henrique (como, então, membro da Direcção do ICN) por ter dado uma ajuda para o enviar para bem longe da nossa terra e do nosso Parque.
Como este "post" já vai longo, apenas gostava de convidar, por agora, os colegas da AMBIO para dar uma espreitadela "à encosta de Vilarinho (que) é hoje uma das áreas com melhor recuperação do Parque Nacional", no dizer do
Henrique Pereira dos Santos, vários dias após o incêndio do Verão passado, depois de lá terem andado 2 aviões, 2 helicópteros, o exército português e multidões de bombeiros.  Assim o exigia o espectáculo que, na minha ingenuidade, tive a desfaçatez de procurar evitar, ao requerer, sem qualquer resposta até hoje, à Direcção do PNPG  que fosse roçado o mato e feito fogo controlado, naquela zona, de cerca de 300 hectares, no inverno de 2006.
Reparem só, se não tiverem paciência para a leitura de todo o Comunicado, na página 4, na "beleza" do foto n.º 2, e na exuberância daquela área "com melhor recuperação do Parque Nacional".
Henrique "dixit".
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf).
Manuel Antunes

----- Original Message -----
From: "henrique pereira dos santos" <as1075017@sapo.pt>
To: "'
Manuel Antunes'" <mantunes@mail.telepac.pt>; "'AMBIO'"
<ambio@uevora.pt>
Cc: "'Ministro do Ambiente'" <gmaotdr@maotdr.gov.pt>
Sent: Monday, February 26, 2007 6:12 AM
Subject: RE: [ambio] Da Caparica para o Gerês

Não sei quem escreveu os baixos do expresso, mas num parágrafo tão pequeno é
obra conseguir meter tanta demagogia.
Vejamos:
"O Jornal EXPRESSO, na sua edição de 24/02/2007, coloca o Ministro do
Ambiente, Nunes Correia, entre os "baixos". Como aí se refere, "a provada
incapacidade em conter o mar na Costa de Caparica"
Será que um jornalista responsável acha normal falar em provada incapacidade
de um Ministro conter o mar? Em primeiro lugar o mar foi contido porque não
houve ruptura, em segundo lugar, como é evidente, não é ao ministro que se
podem pedir responsabilidades sobre os resultados de obras de emergência. Ao
ministro podem pedir-se responsabilidades sobre a política de gestão do
litoral e, neste caso, até acho que se lhe devem pedir responsabilidades
pelo facto de se estar enterrar dinheiro a defender parques de campismo que
de campismo não têm nada, e que há muito deveriam de lá ser tirados. Isto é,
o problema é a contenção a mais e não a menos.
"e a denúncia de que, volvidos seis meses sobre os incêndios no Gerês, ainda
não foi plantada qualquer árvore, não abonam a favor do Ministério do
Ambiente."
Felizmente que não foi plantada qualquer árvore, seria mais dinheiro deitado
à rua. O incêndio teve muito menos consequências do que para aí se diz
(provavelmente o jornalista nunca foi ao Ramiscal na vida) e a haver medidas
de recuperação elas devem ser no sentido do apoio à regeneração natural e
não a ir para lá estragar mais com as florestações que são muitas vezes mais
degradadoras que o próprio fogo.
"No Gerês, a culpa parece ser da falta de verbas do Parque Natural; na
Costa, diz-se que há muito dinheiro deitado ao mar. Sugere-se uma troca de
verbas"."
Agora fico baralhado. Então critica-se a incapacidade de conter o mar e a
solução é investir menos? É tão fácil arranjar uns trocadilhos a fazer pouco
dos outros quando não se tem qualquer responsabilidade de decidir o que quer
que seja.
"Agora compreende-se porque um Comunicado d' AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf), sobre o último incêndio
no monte de Vilarinho, enviado por e-mail para o Gabinete do Ministro do
Ambiente, em 2/09/2006, só foi lido em 19/10/2007"
Caro
Manuel Antunes, devo ter sido o primeiro técnico (juntamente com
outros, se bem me lembro) a dar parecer sobre o projecto de florestação que
é referido no comunicado, lá pelos idos de 1989 e se tenho consciência de
ter feito muitas asneiras pela vida fora seguramente que o parecer negativo
que dei não foi uma delas. Se a encosta de Vilarinho é hoje uma das áreas
com melhor recuperação do Parque Nacional é exactamente pela diminuição da
pressão humana que se seguiu à construção da barragem (diga-se de passagem
que provavelmente eu teria sido contra a construção dessa barragem, mas não
é isso que discuto). E com o projecto de apropriação disfarçado de projecto
de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que
temos hoje, do ponto de vista da conservação.
henrique pereira dos santos
 


publicado por MA às 18:04
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
Vilarinho da Furna - Textos
"Vilarinho da Furna"
Alfredo Mendes, in Rio Lindo, ed. Águas do Cávado
 
Era uma vez uma terra na paz profunda do vale. Ossadas de Vilarinho da Furna, albergando até ao tutano eco de almas, de viveres, gritos de saberes suspensos num tempo indizível. Tempo aferido por relógios de sol petrificados, povo de lembranças, quantas delas crestadas nos rostos de pedra que podeis enxergar quando as minhas águas rareiam. E então havereis de lhes chamar lápides falantes, lápides que calam fundo, ou não fossem pedra-lar dos serões aconchegados ao lume, «fias tu?, fio eu, minha mãe». Com o fumo evolam-se histórias de lendas, dos ursos pardos rondarem por ali; e sob a abóbada das varas dos enchidos o era uma vez continua no sonho e no sono das princesas encantadas, tranças de ouro bordejando-lhes o rosto. E assim o povo dormia amornado, levando na veia do coração o corpo da terra nua e crua.
Ao luar, sombras amortalhando um santuário de afectos para sempre sepultados. E supõem não haver uma alma penada pelos pecados do mundo nas margens sentada, queda e calada, respirando pulsares cobertos pelo espírito das águas mansas?
Essa a penitência na aldeia comunitária que já foi, na paz monacal que parecia ser. Lembranças de bordas de pão cozido pelas madrugadas do silêncio, seis rasas de milho para um quarto de rasa de centeio, o alimento diário. Se caía um naco ao chão? Beijavam-no com tal carinho que pareciam louvar o Menino Jesus na noite de Natal. Pão, fermento de vida. Vinho, fruto da videira e do trabalho do homem.
No regaço do vale expulsavam o vizinho por ter alugado casa a gente de fora. A respeitar, o... «entre quem é!» No regaço do vale cortaram cordões umbilicais, oraram pelos seus mortos, «dai-lhe, Senhor, eterno descanso» e pelo velório uma tecla de toucinho espreguiçada sobre o pão amaciado a goladas de bagaço. Rezavam-se trinta Padre-Nossos mais trinta Avé-Marias; depois, a estafa de levar o esquife ao ponto mais alto da terra, por acaso o mais perto do céu e a quem acompanhasse o morto até à última morada, um copo de vinho, uma ração de pão serventia da mantença, ao outro dia, comilança melhorada em santa obediência ao antigo culto dos mortos. Pão e vinho andam a caminho neste remoto ritual ao ar livre. Ai as manducagens nos enterros, uma mulher à frente do defunto a oferecer a Deus (padre), meia rasa de milho e meio quilo de toucinho.
O requiem de uma terra ainda sem sorte tocada, isso mesmo confiavam pastores e moleiros movendo-se nas suas terras de aluvião. No sopé da serra Amarela pedras de uma civilização em decrepitude, ao fundo, pinheiros bravos, carvalhos, azevinho com bolinhas vermelhas e no meio de tudo o Éden tinha a seu regalo gado suino, lanígero, bovino. Ah, lembra a alma a penar pelo renascer da Fénix, um tal Verdego, seja a Maria Joaquina, as casas eram de granito e soalhadas de carvalho, nos baixos currais ou lojas térreas, tanques para o vinho de ramada e de enforcado, onde ferviam mostos purpurinos e eu, rio mortalha, a pensar nos resquícios da velha têmpera daquelas mulheres, daqueles homens.
Na rudeza das pedras, velhos com olhos rasos de água por tanto amarem a terra dos seus amores continuam ir ali pôr flores no cemitério; continuam a ver casas colmeadas, a autoridade instituída a um zelador, responsável pela administração daquele povo agro-pastoril. Uma democracia ancestral, as cinco chagas da vara do zelador, ceptro sublime de um comunitarismo a resistir na serra distante do mundo. Povo ribeirinho a tecer, a sachar a hortaliça, a fazer o fumeiro, festa da abastança, a do sangue cozido. Povo carpinteiro, ferreiro, sapateiro, povo a erguer muros, a compor carros de bois. Sai a vezeira, cada um dos donos responsável por vigiar o gado de todos, ai a vezeira da rês, «Botai-la rês». À noite retornam as cabras mais o seu balido, um chocalhar ao clamor dos pastores, «Estrema! Estrema!».
Ouçam agora o toque do corno de cabra para a reunião no Chão do Forno, às quintas-feiras. Ouçam os brados de antanho, «Botai-la rês», outra vez, «Botai-la rês» e tende cuidado, muito cuidado com o acoitar dos lobos dominando cabeços e matagais. Nas batidas encaminhavam-nos para os fojos, toscamente vos descrevo, duas grandes paredes de pedra em ângulo agudo. Se mesmo assim as feras tinham fuga, aos zagalotes, meu povo!, e ei-los correndo feridos e exangues, através da abertura apertada até caírem no fosso coberto de folhas e de ramos. Adeus, adeus ao uivar à lua, e balbúrdia guerreira nos chavascais--alegria dos donos de ovelhas e cabras, mal sabendo que os animais também são bodes expiatórios com costas muito, muito largas. Mas disso pouca fé faziam caçadores e batedores, a hora era de comer e de beber, de entrar na terra alombando as feras mortas, dentes arreganhados, olhos vítreos de vida finda.
Facetas muitas, pelos barrancos contrabando até terras de Espanha entre matas de medronheiros, homens conhecedores de todas as pedras, de todas as pegadas, vigília aos ventos do céu atlântico, da boa-aventurança, da grande audácia. E emigraram além-Pirinéus, miragem de um pão menos rançoso. Para aí caminhava um povo ensimesmado pelos labores e pelas serras e pelos vales e pelo estio e pelas geadas. Não um povo de homiziados, mas um que sabia manejar o arado quadrangular, as gadanhas, as croças, a masseira, o forno. Povo que sabia mimar os currais com fenos e carvalhos, deixando-se cativar por um verde belíssimo aos primeiros raios de sol após as chuvas inverniças. Porque invernadas agrestes, ardem toros de carvalho, raízes de urze aquecendo a cozinha. Nos escanos, velhas embiocadas tremelicam ensalmos. Para os recos refocilando nas lojas, o caldeirão de cobre, a lavagem fumegante, negros potes de ferro fundido com caldo pronto a sorver num rugir animalesco. A família Trigo, a família Fecha vão à deita, o sono já espreita; camas com o desenho do sino-saimão, tal acontecia no jugo dos bois e... pelo sinal da Santa Cruz!
A cruz com barbichas de musgos nos espigueiros ou canastros do século XVIII, ripes de madeira assentes em pilares dotados de discos de pedra na parte superior, guardiões de espigas de milho e de seculares cravelhos. A cruz, ainda a cruz nos moinhos e a mó girando, girando... a farinha, sacos dela, o rodízio, a adelha, a seteira, o farfalhar da água... E a mula do moleiro? Sabe o caminho de cor e salteado quando o dono apanha uma destas carraspanas que precisa de ser levado à paz do doce lar e às azedas palavras da mulher.
Toda esta vivência abençoava a padroeira da terra, Nossa Senhora da Conceição, a oito de Dezembro. De ano para ano a incumbência de um vizinho organizar a efeméride; o cavalheiro, investido de anfitrião, sacrificava mais de dez cabras a que juntava dezenas de quilos de arroz e de pão. E viva a banda, sonante instrumento do sangue da festa-desforra. Comeres melhorados, já se sabe, nem só de boroa de milho, caldo de vagens, farinhatos no inverno, chouriços e sarrabulhos se lambuzar o povo. Nem só sopas de leite ou perdiz ou caçapo crivados de chumbo adentavam os filhos da terra. Nem só trutas e escalos no verão ziguezagueando pelo rio Homem euforizavam as suas vontades.
Ao cristianismo caldeavam rituais pagãos. Querem saber de um? Pela meia-noite de Natal saíam à rua com um cavalo aceso, tirado da lareira, ficando o povo a saber de que lado estava o vento. Do Norte? Ano frio. Do Sul? Ano quente. Do Nascente? Chuva quente. Do Poente? Chuva fria.
Contra toda a espécie de intempéries e maleitas se apelava aos antibióticos dos médicos e às benzedeiras mais os seus defumadouros, prática que nenhuma comunicação moderna logrará esfumar. Então havia que arrenegar a bruxaria, ou o sabbat de sinistras memórias. Medos velhos e revelhos amantizados com o sobrenatural, olhem ali o senhor padre intercedendo por S. Sebastião, advogado contra a fome, a peste e a guerra e o santo dando voltas à igreja em caso de calamidade nas terras. E os infortúnios aplacavam, pois tinham de aplacar, fosse à teima de comer à tripa-forra, ou para tal funçanata homem de fortes costados não botasse sentido. O senhor padre, olhem ainda para ele, afofando as botifarras nas encostas rochosas a declamar esconjuros ao Pai do Céu. Procissões, alminhas do Purgatório e... almas apaixonadas. Surgiam os casamentos, mal de amores desabrochando a todo o momento; noivas virgens?, outra a prática, laços, mais laços e lacinhos e a terra cogumelada de guarda-chuvas abertos.
                        Lá vem-no senhor doutor,
                        Com a lanceta na mão
                        Bem te dizia Laurinda
                        Que era na veia do coração.
 Nesses dias povo aperaltado na vestimenta, posto a lã, o linho, as croças de palha terem outro paradeiro no canto escuro da casa. Para as arcas o ataviar austero da solidão dos dias em que os homens usavam burel e aventais das costas transformando-os em figuras espectrais de arrepiar pelas encruzilhadas, também disso deu nota o investigador Jorge Dias.
A ganapada, essa, perseguia os garranos, não os da noite de Natal cobertos de luzes, qual?!, garranos selvagens em larga desfilada atravessando livremente a fronteira galega à velocidade do vento suão. E viam a beleza da vezeira da vaca que começava no dia um de Maio, terminando no dia de Todos-os-Santos.
Era uma vez uma terra na paz profunda do vale.
Era uma vez a família Geira, sessenta casas amontoadas, cabanas de pastores (furnas) para a pernoita durante os meses das vezeiras.
Era 1972 e aprisionaram o meu braço direito, Homem, nome de rio. Altura e largueza de albufeira. Precisão de quilovátio. Ficaram os esqueletos das casas e lodo, muito lodo. Ficaram os esqueletos das árvores ocas, dedos apontados ao céu e às consciências humanas.
Era uma vez uma ponte romana rodeada de flores que na lama parecem firmamento de estrelas velando aos mortos do cemitério, restos protegidos por um santo incógnito
Terra submersa, amores enterrados em lençóis de água. A velha alma a penar, lembram-se?, nas margens do Homem falando com os seus fantasmas e...
Era uma vez uma rapariga tão linda, tão linda que de Vilarinho da Furna teve de fugir sem a força impulsionadora de um poema:
                        Manuel é quem me ama,
                        Manuel é quem m´adora,
                        Manuel é quem me tira
                        Da minha casa p´ra fora.
 Permaneceram fantasmagóricas sobras de paredes, espigueiros, ruas, salas e quartos à vista quando as minhas águas descem, praticamente escoam e toleram revelar ao mundo a riqueza de um comunitarismo julgado pobre e eterno. Casas de ouro velho por acção e graça do sol na altura das vacas tornarem às lojas e o velho trazer para casa o burro pela arreata.

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publicado por MA às 20:39
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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007
A Costa

"O reforço das dunas nas praias do Norte, na Costa de Caparica, feito pelo Instituto Nacional da Água (INAG) há três semanas atrás, já foi destruído pelas marés cheias de domingo e de ontem" - dizem.

Porque não deixam o mar seguir o seu ritmo e os rios os seus cursos?

E não acabam com as barragens, a começar pela que destruiu Vilarinho da Furna?

MA

(Aldeia de Vilarinho da Furna, destruída por uma barragem)



publicado por MA às 22:16
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